O filme de Ken Loach foi exibido no dia 13/9 na disciplina Bases Conceituais para Educação Profissional e Tecnológica. Alguns personagens se encaixam claramente nos conceitos sobre o atual mundo do trabalho. Dessa forma, fiz um pequeno léxico analítico contendo algumas impressões sobre Daniel e seus amigos:
• Daniel Blake - A entrevista dos pontos, na primeira cena de "Eu, Daniel Blake", se assemelha bastante ao início de outro filme: Blade Runner, de Ridley Scott (1982). A diferença básica entre as duas cenas reside no fato de Daniel possuir natureza humana, ao contrário do entrevistado no filme de ficção científica, identificado como um androide com aparência de homem comum. Ironicamente, a frieza do interlocutor, que tem natureza humana, é a mesma em ambas as cenas. O filme de Scott retrata o ano de 2019, data bem próxima ao martírio do personagem Blake que ocorre por volta de 2015. Contudo, é na semelhança de datas que outra diferença se sobressai: Daniel não é eliminado por caçadores de androide. A eliminação se dá por uma forma menos descarada, mas bem eficiente quando o assunto é retirar peças problemáticas ao sistema. Daniel não é tratado como humano ou androide, e sim, como um boi doente, largado para que a morte chegue sem a necessidade do abate.
• Katie - A solidariedade do amigo Blake contrasta com a atitude da rede de prostituição, a qual explora a vulnerabilidade financeira da moça. Esta, cansada e com frio, por sua vez, representa uma contradição presente nos fetiches do capitalismo: é melhor prostituir-se, reificar-se sexualmente as escondidas, a obrigar sua família a mendigar em uma casa de caridade ou ser ridicularizada por não possuir a aparência adequada perante o protocolo social.
• China - O vizinho de Blake tem uma alternativa fantástica para safar-se da exploração de empregos cansativos e mal remunerados: o jovem se lança no mercado informal, explorando os fetiches do consumo, não esquecendo a mania das empresas capitalistas de distanciar-se geograficamente para centros periféricos de produção bastante lucrativos. China, então, importa mercadoria de um desses centros por um preço irrisório, dribla o fisco e se torna um vendedor sagaz. Com isso, o garoto negro tem bastante sucesso como empreendedor clandestino e, principalmente, como fugitivo do mercado legal e explorador.
• A assistência social: cumpre o papel burocrático kafkiano que obriga seus usuários a se comportarem como peças de uma engrenagem que podem ser substituídas, caso aparentem defeitos.
A professora Daniele sempre enfatiza que devemos enxergar os avanços que o sistema de produção capitalista nos proporciona. Dessa forma, vemos nas obras de Scott e Loach que criação não é nosso problema. Podemos, por exemplo, desenvolver máquinas para executar tarefas desagradáveis e espalhar nossos currículos com alguns cliques. No entanto, ambos os filmes nos deixam as seguintes questões: até que ponto a instrumentalização dos homens ou da consciência humana significa progresso? Poderemos um dia superar a exploração e evoluir materialmente sem coisificar o trabalho e as pessoas? Estamos aqui no PROFEPT estudando para dizer "Sim, é possível" a essa última pergunta. E a resposta está vinculada a uma ferramenta bastante cara à lógica capitalista: conforme exposto pelo professor Glauco, essa ferramenta é a Escola, mas isso é assunto para outro post.

Excelente análise, Angélica. Publiquei um post sobre esse filme também abordando como ele mexeu comigo no que se refere ao tratamento que o Daniel recebeu por parte do Estado personificado nos seus agentes públicos. A falta de dignidade com que o personagem foi tratado nos remete à situação atual do nosso país em que nós, cidadãos, estamos a mercê apenas do individualismo e dos interesses do capital.
ResponderExcluir"Largado como boi doente para que a morte chegue sem a necessidade do abate". Forte!
ResponderExcluirO filme, ao trazer uma história verossímil, revela a covardia e a crueldade da reificação do ser humano vivenciada em nossos tempos e, por isso, ganha eloquência. Covardia e hipocrisia não assumir a exclusão que se faz, escondendo-se atrás de papéis, desviando o olhar para documentos, sem olhar nos olhos de quem está sendo excluído. Peças gastas ou inadequadas são descartadas. Contudo, é tocante a resistência quase natural do ser humano a essa coisificação expressa no filme: o contraste entre, de um lado, a frieza e a indiferença das relações burocráticas e interesseiras, e, do outro, o calor humano dos gestos de profunda solidariedade e amor.
Esplendida reflexão, suas colocações foram extremamente felizes. Ao assistir o filme eu tive um sentimento de que o mundo é muito igual em suas desigualdades, o que o filme retratou em uma ficção copiada e colada de uma realidade com uma distância geográfica e histórica da nossa é tão cruel, mas não me é estranha, todos aqueles acontecimentos são comuns também no nosso país.
ResponderExcluirAnálise muito bem feita! A sociedade precisa de pesquisas e mestrados como o nosso, para poder fazer o enfrentamento dessa realidade que tanto nos assusta...
ResponderExcluirEu ainda não assisti a esse filme. Fiquei feliz por sua postagem não conter "spoilers":). Ao mesmo tempo, sua análise dos personagens aguçou a minha curiosidade!
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