Foi muito interessante fazer a ficha de leitura de um trabalho sobre o cineclube de uma escola prisional. O tema não casa diretamente com a minha intenção de projeto, mas não ler, seria ter a minha curiosidade tolida. Então li, gostei e trouxe a foto e o link do filme "Os incompreendidos", o qual faz um paralelo engraçado entre a Escola e o reformatório, além de nos dar um vislumbre do cinema como diversão. Após a foto, posto também o primeiro dos meus três fichamentos.
Insere-se nos seguintes campos: arte, cultura e sociedade. Utiliza técnicas de pesquisa qualitativa por meio do método de observação. Os registros compreendem o relato de uma experiência profissional e pessoal, munida de fotos, ou seja, a memória da pesquisadora. A abordagem é analítica e crítica.
Apresenta o projeto Cineclube prisma ocorrido, em 2009, na escola do presídio Evaristo de Moraes no Rio de Janeiro, usando a pessoalidade. Alunos: presidiários adultos.
Estímulo que desencadeou: desejo de partilhar a paixão por cinema com os alunos a partir de uma visão artística, considerando a experiência estética.
O objetivo descrito é analisar o lugar do cineclube em uma escola prisional e propor a reconfiguração deste a partir de uma reflexão sobre a experiência do cinema neste ambiente.
Inclui pequeno histórico sobre o sistema penitenciário. Traça breve perfil dos presos a partir da correlação social que impulsiona alguém a cometer delitos, bem como aqueles que julgam as infrações, não esquecendo as leis para fins de encarceramento. Problematiza o delito e os grupos passíveis de serem perseguidos pela lei. Utiliza conceitos de Michel Foucault.
Descreve o presídio e o tratamento desumano aos detentos e seus familiares.
Descreve a escola do presídio e critica o sistema tradicionalista escolar que engloba o respeito as burocracias, ao status quo e ao politicamente correto mesmo em situações que não cabem.
Considera que a exibição de filmes não deve ser relacionada a complementação de conteúdos escolares e sim a percepção artística e afetiva.
Relata a dificuldade dupla de instalar um cineclube dentro de uma escola e de um presídio, ambas instituições que prezam pelo conservadorismo e a ordem. Apresenta principalmente a dificuldade de exibição de filmes considerados inapropriados, a falta de estrutura e a incompreensão quanto a importância do projeto.
Aborda que a lógica hierárquica da prisão, espelhada na escola, era também partilhada pelos alunos. Estes, por sua vez, não entendiam o propósito do cineclube, assistiam o filme por obrigação.
Relata o resgate do interesse dos alunos pelo cinema a partir do ponto de vista de um cinéfilo.
Explicita o conceito de espectador. Crítica a relação hierárquica entre mestre/artista e artista/espectador.
Problematiza a dicotomia “filmes bons (elitizar o gosto)” versus “filmes comuns (poluir o gosto)”.
Apresenta a definição e a história da cinefilia.
Relaciona o paradoxo entre a imposição de conhecer o cinema pela escola ou de não conhecê-lo com um olhar artístico e crítico. Explana um caminho: ser honesto, dividir o gosto para permitir que o cinema na escola priorize a experiência, não o conteudismo.
Levando em consideração a vulnerabilidade das pessoas privadas de liberdade, apresenta filmes que os detentos não teriam acesso.
Esclarece o conceito de “Emancipação” segundo Leroux: a desigualdade social está na concepção de diferença entre aqueles que detêm a independência intelectual e aqueles que precisam ser educados para tê-la. "Culto a razão". A educação é a saída, até que essa concepção seja superada.
Critica a dificuldade em partilhar interesses com a igreja evangélica que “tudo pode” na cadeia.
Descreve as exibições ocorridas no cineclube acompanhadas de conservadorismo dos funcionários e fascínio dos presos.
Expõe o conceito Espectador emancipado, segundo Jacques Rancière: o olhar também significa ação.
Expõe o Conceito de dissenso (por Rancière): experiência de desentificação, não interessando o debate ou a interpretação, mas o envolvimento com o filme a partir das múltiplas inteligências do espectador. Partindo disso, a ideia é não pedagogizar o filme, porque boas obras são mais eficazes como experiência estética.
Conclusões: o cinema é arte, não conteúdo. Em um contexto pedagógico-prisional, bastante normatizador, o cinema não tinha posição de destaque ou privilégio. Ao contrário, o projeto foi carente de legitimidade. Diante disso, um novo espaço para produção de sentidos foi criado, mas de forma cada vez mais hierarquizada. Portanto, no Prisma cineclube, não foi possível exercer as ações com liberdade, conforme se desejou. Desejo e objetivo não foram atingidos devido a particularidades prisionais.
Contribui para minha intenção de projeto na medida que explicita as dificuldades em desenvolver o cinema enquanto arte dentro de sistemas normatizadores. Além disso, o senso crítico da autora, bem como sua visão sobre o espectador, o cinema enquanto arte e os direitos humanos são questões bastante inspiradoras. No entanto e apesar da pertinente equiparação entre Escola e Penitenciária, a problemática da escola dentro de um presídio difere bastante da minha intenção de trabalhar em uma instituição regular de educação profissional. Logo, ficaram lacunas nesse aspecto.

Angélica, seu fichamento me deixou com vontade de ler esse trabalho. O título já é sedutor, traz aquela pergunta tão comum na escola: "É aula ou filme?". Para mim, essa pergunta tem implícita uma distinção hierarquizada das atividades. A analogia entre presídios e escolas é sempre chocante porque, em certa medida, é real. A docilidade dos corpos. Pelas suas anotações, foi possível perceber as nuances das reflexões e dos resultados do trabalho da pesquisadora, o que me deixou ainda mais curioso. Cinema como arte, experiência mais ampla, não como a limitadora instrumentalização de conteúdos. Vamos conversar pra você me ensinar o que aprendeu nessa leitura.
ResponderExcluirAngélica, interessantes demais, os trabalhos que você fichou!
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